V - Provocação

Depois daquele “encontro” na casa de banho. Maria seguiu para a aula, entrando já bastante atrasada. Enquanto que Patrícia foi dar um passeio que iria decidir a sua vida.
À hora de almoço os três amigos dirigem-se ao refeitório, onde João se depara com um espectáculo que a deixa furiosa. Numa das mesas, um grupo de rapazes e raparigas gozavam com um miúdo pelos seus óculos e até mesmo pela quantidade de medicamentos que se encontravam a sua frente. Pareciam muito divertidos e decididamente achavam que estavam a ser muito engraçados. Mas ela não estava a achar graça nenhuma à situação. Desprezava-os pela situação em geral e pelo miúdo em concreto, ou não fosse ele o seu irmão mais novo.
Joana e Rui olhavam incrédulos quer para a cena, quer para o rosto cada vez mais enraivecido da amiga.

– João, mais confusão hoje não... Ainda vamos no primeiro dia... – Pediu Joana, mas ela já não ouviu pois já se dirigia com movimentos firmes para o local da agitação.
– Bem, já viram? Parece uma farmácia. – Ria-se Gabriel quando reparou no furacão que se dirigia na sua direcção.
– Deixa-o. – Disse Maria com voz firme.
– Olha quem é ela. – Provocou um dos rapazes do grupo que ela identificou como sendo o rapaz da joelhada de manhã... Ele estalava os dedos em tom ameaçador.
– Então já passou a dor? – Provocou ela.
– Qual dor? – Quis saber Gabriel.
– Não interessa.
Maria sentiu a presença dos dois amigos atrás de si, e do seu irmão que olhava para ela assustado. Sabia que não era boa ideia meterem-se com a sua irmã. Mas para além deles reparou que os restantes alunos presentes na divisão, estavam com os olhos postos nela e no elemento que parecia liderar aquele grupo de inconsequentes. Aquele rapaz com ombros largos e porte desportivo que a olhava com um ar gozão e divertido. Estava disposto a ver até onde ela ia, mas ao mesmo tempo não ia deixar que uma rapariga, embora mais parecesse um rapaz, o desafiasse em público.

– Essa miúda tem a mania se meter onde não é chamada.
– Deve achar que é a defensora dos fracos e oprimidos. Queres uma estátua? – Ao desafiá-la, deu-lhe um leve encontrão junto ao ombro.
Ela olhou para o local onde ele tinha tocado e de novo para ele. Mas apesar dos seus olhos crisparem de raiva, não se moveu um milímetro, apenas acrescentou calmamente:
– Eu só quero que parem de implicar com quem não se consegue defender. E que não partilhem os vossos modos primitivos e a vossa ignorância com mais ninguém para além de vocês mesmos. O mundo só tem a ganhar.
Aquela, aquela amostra de rapariga, definitivamente, estava a passar das marcas...
– Eu mostro-te o que são modos primitivos.

Naquela altura, perdera mesmo o controle e esquecendo-se de quem estava ao redor, agarrou-a na camisola na área do colarinho. Não lhe queria bater mas reagiu por instinto, não aguentava ouvir um insulto daqueles e ficar quieto. O que não esperava era a reacção que ela tivera a seguir. Ela apanhou-o totalmente desprevenido, quando o agarrou no braço, deu-lhe a volta e empurrou-lhe as costas de maneira que ele batesse com o nariz na mesa, e ficasse com o peito sobre ela enquanto que o braço permanecia agarrado por ela, e encostá-lo às suas costas. Parecia fraca, mas tinha força e assim imobilizou-o impedindo-o de se mexer. O amigo ao ver o ataque reagiu dirigindo-se a ela, mas levou um pontapé na barriga, caindo no chão. Estavam todos de boca aberta, ninguém queria acreditar no que tinha acabado de acontecer. Parecia demasiado irreal, talvez uma cena de um filme, mas nunca algo que tivessem acabado de presenciar ao vivo. Mais ninguém, nem nenhum elemento do grupo, se atreveu a intervir, e ataca-la. Finalmente, ela largou o Gabriel, que se encontrava a sangrar devido à pancada. Dois rapazes ajudavam a levantar, o que estava caído no chão.

– Tu és doida!!
– Talvez. Mas não tens que te preocupar com isso, a menos que te voltes a meter, tu ou algum dos teus amigos, – dirigiu-se especificamente ao namorado de Rebeca – com qualquer aluno desta escola, muito menos com o meu irmão. Ouviram bem?
Sem esperar pela resposta dirigiu-se, ao pequeno que a olhava assustado.
– Estás bem? Já almoçaste?
Ele respondeu afirmativamente.
– Então anda, vou-te levar à sala. Não tenho mais nada que fazer aqui, perdi a fome.
Ajudou-o a arrumar os medicamentos, e seguiu em direcção à porta, perante o olhar ainda atónico dos restantes.

– Isto não vai ficar assim, ouviste, sua doida? Vais pagar-mas. – Ainda ouviu antes de desaparecer pela porta. Era a segunda vez, que a ameaçavam num dia. Aquele ano, começava bem...
– Obrigada mana. Deste um valente coça aqueles dois. Parecias um herói dos desenhos animados. Ensinas-me a lutar assim?
– Não Rafa. Não se deve lutar. É errado.
– Mas tu lutaste...
– Foi diferente, não fui eu que comecei. E também fiz mal, não devia ter perdido o controlo. Vou arranjar sarilhos. E aqueles dois magoaram-se.
– Mas eles mereciam.
– Mas mesmo assim... Não se deve recorrer à violência. Não devia ter feito aquilo, só desci ao nível deles. Tenho que me controlar.

– Sim, mana. Mas continuo a achar que foste um espectáculo. Obrigada por me ajudares. Adoro-te, és o meu herói. – Dá-lhe um beijo carinhoso na face. Ela sorri.
– Obrigada. Já sabes “Sempre que precisares eu estarei lá” – proclamou imitando os heróis que se viam na televisão. – Agora vai para a aula ou chegas atrasado.
Despediu-se dele com um beijo e uma esfregadela suave no cabelo. Adorava aquele miúdo. Por ele valia a pena continuar a lutar.
Quando se virou para ir para a sua própria aula, deu de caras com a Joana e o Rui.
A sua amiga, estava de braços cruzados, olhando-a fixamente com ar reprovador.
– Tu não ganhas mesmo juízo, pois não? E desta vez, nem sequer se passou um dia, até te meteres em sarilhos. Um dia, João!

– Jo escuta.
– Não. Não quero ouvir. Tu fazes ideia, do que fizeste? A directora já sabe o que aconteceu e quer falar contigo. De certeza que vais ser suspensa...
– Não me surpreende. Também não é a primeira vez...
– Pois não. Mas espero bem que seja a última. Já viste o que estás a fazer à tua vida? Por favor, João...
– Eu sei que tens razão, Jo. Eu perdi o controle, mas quando os vi de volta do Rafa, perdi a cabeça. Eles não têm o direito de se meter com ele. Ele é doente.
– Eu sei disso. E compreendo. Mas mesmo assim, tenta pensar antes de fazeres asneiras. Prometes?
Ela suspirou. A amiga tinha razão. Tinha que pensar primeiro e agir depois.

– Prometo.
– Está melhor. Desculpa, mas eu preocupo-me contigo.
– Eu sei. Obrigada. – As duas amigas abraçam-se.
– Então e eu? - Pergunta Rui que entretanto tinha sido esquecido por elas.
– Tu não mereces, além disso é melhor irmos, já tens problemas que cheguem. E ainda tens que ir falar com a directora, ela está furiosa.
Maria encolheu os braços, e seguiu-os. Aquela miúda nunca mudaria. Coitado do Rui...

IV - Encontro com uma desconhecida

No intervalo da primeira aula, Maria vai à casa de banho. Mas ao chegar depara-se com uma situação fora do normal. Uma rapariga de cabelo escuro e encaracolado encontra-se ajoelhada junto à sanita e vomita com grande esforço. Fica um pouco à espera para no caso da rapariga precisar de ajuda. E quando esta se levanta, repara que ela está a chorar. Ela fica muito atrapalhada. Não tinha reparado que não estava sozinha. Ela estava pálida e com um ar bastante infeliz.

– Está tudo bem?
A outra ficou muito surpreendida pois não pensou que uma estranha a fosse abordar e perguntar pelo seu bem-estar físico.
– Está. Obrigada.
– Peço desculpa, mas não é o que parece. Posso ajudar?
– Não obrigada. É só uma má disposição.
– Não me parece que o problema seja só físico.
Patrícia não responde, apenas baixa os olhos. Aquela rapariga não a conhecia de lado nenhum, mas estava disposta a ajudá-la. Naquele momento ela bem que precisava falar com alguém, mas não tinha coragem para falar com nenhuma das suas amigas.
– Às vezes quando temos problemas é mais fácil falar com desconhecidos. Eles não nos cobram nada.
Ela recomeçou a chorar. E disse entre soluços.
– Eu acho... eu acho que estou grávida.
– Achas?
– Sim, tenho todos os sintomas mas ainda não tive coragem para fazer o teste. Não consigo ir sozinha e também não posso pedir a uma amiga para ir comigo. Não quero que eles saibam, não para já.

– Não há problema, eu vou contigo. Ou melhor, fica aqui que vou comprar um teste à farmácia, aqui em frente.
– Não é preciso, obrigada. Não quero incomodar. Quer dizer, tu nem me conheces.
– Eu sei. Mas um dia que precisasse também gostaria que alguém fizesse isso por mim. Não custa muito ajudar os outros. E esta também é uma ajuda pequena.
– Não sei o que dizer. Obrigada.
– Não precisas agradecer. Agora espera um pouco, volto já.
João saiu e Patrícia voltou a ficar sozinha, desta vez trancou-se num dos compartimentos para não se voltar a cruzar com outra desconhecida.

O que faria se estivesse grávida? Ela ainda andava no liceu, e queria ir para a faculdade. Não queria desperdiçar a sua vida. Mas... teria coragem para fazer um aborto? Como iriam os seus pais reagir àquela notícia? Como iria o Luís reagir? Ele ainda estava a meio do curso. Apenas com o part-time não conseguiria sustentar uma família. Isto se não a deixasse. Meu Deus. Tantas duvidas, tantas perguntas. A sua cabeça estava tão confusa. Aquilo não podia estar a acontecer, só podia ser um pesadelo. A vida dela estava prestes a ficar de pernas para o ar. O que é que ela iria fazer?
Maria não se demorou e voltou com o teste prometido.
– Coragem. Dentro de minutos terás a certeza. Quer a noticia seja boa ou má, ao menos terás a certeza, e essa dúvida deixará de te atormentar.
– Se... se eu estiver grávida, o que é que eu vou fazer?
– Primeiro preocupa-te em saber se estás mesmo. Não sofras por antecipação.
Patrícia pegou na embalagem e voltou a entrar na casa de banho. Leu as instruções e seguiu-as à letra. Saiu poucos minutos depois. Já sabia o resultado.
Mesmo sem conhecer a rapariga que se encontrava à sua frente à espera, abraçou-a e ali ficou a chorar e a soluçar durante largos minutos.
– Deu positivo. – Foi a única coisa que conseguiu dizer.

João não sabia o que dizer. Nunca passara por uma situação daquelas e não fazia a mínima ideia do que se dizia a uma rapariga de 17 anos que acabara de descobrir que estava grávida. Limitou-se a passar-lhe as mãos pelo cabelo e a deixá-la chorar à vontade. Devia ser desesperante. Afinal ela ainda era uma miúda e teria que arcar com uma grande responsabilidade, para além que não poderia viver uma adolescência normal. Aquela rapariga com um ar tão desamparado seria obrigada a crescer à força.
– O que é que eu vou fazer agora? O que é que vou fazer da minha vida?
– Neste preciso momento, a única coisa que podes fazer é reunir forças e seguir em frente. Vais precisar de muita força nesta nova etapa da tua vida. Afinal de contas vais trazer uma criança ao mundo.
– Eu não estou preparada para ter um filho. Como é que é possível? Eu nem consigo tomar conta de mim sozinha, como é que vou tomar conta de um bebé? Não faz sentido. Não sou capaz.
– Bem quer queiras, quer não a verdade é que estás mesmo grávida, apesar destes testes não serem seguros e ser melhor consultares um médico.

– Não é preciso. Eu no fundo já sabia só não queria acreditar, precisava de algo que mostrasse que era realidade, que estava mesmo a acontecer e não estava tudo na minha cabeça. Os meus pais nunca vão aceitar, vão me por fora de casa.
– Não podes pensar assim. Vai ser muito difícil, disso não tenho dúvidas, mas quando há amor todos os obstáculos podem ser ultrapassados. E quanto ao pai da criança, como achas que ele vai reagir?
– Não faço a mínima ideia. Ele é mais velho mas também ainda está a estudar. Esta criança vai mudar a minha vida e a dele para sempre. Vai arruinar as nossas vidas.
– Tu... tu estás a pensar em abortar?
– Não... Sim... Não sei. Estou tão confusa.
A futura mamã senta-se no chão com as mãos por entre os cabelos. Estava tão perdida. Precisava espairecer, precisava pensar.

– Eu preciso, preciso de sair daqui. Preciso pensar.
– Eu compreendo. Quero que saibas que apesar de não passarmos de estranhas, podes contar comigo para o que quer que seja.
– Acho que apesar de não nos conhecermos bem, já não somos assim tão estranhas.
– Tens razão. Mas falava a sério. Se precisares de alguma coisa é só dizer.
– Obrigada por toda a ajuda. Foi muito importante para mim não ter que passar por este momento sozinha. Só te peço que não comentes nada com ninguém.
– Não te preocupes será o nosso segredo.
Com um abraço selaram o início de uma das mais bonitas, puras e sinceras amizades que elas alguma vez conheceriam.

III - O Plano

Enquanto isso, no balneário masculino do pavilhão desportivo, Gabriel e Rebeca, encontram-se depois dos treinos dele. Como estão proibidos pelos pais de se verem, têm que aproveitar todas as oportunidades. Os amigos dão uma ajuda deixando-os sozinhos e não contando a ninguém.

– Gosto tanto de te beijar.
– Eu também. Não me importava de o fazer durante todas as horas do meu dia, durante todos os dias da minha vida.
– Pois, mas a situação está cada vez mais complicada.
– Porquê?
– Acho que os meus pais desconfiam de nós.
– Mas porquê? Não lhes disseste que tínhamos acabado tudo?
– Claro que sim. Sabes que não podia ser de outra maneira.
– Então?
– Sabes como é. Desde os catorze, que pouco foi o tempo em que não tive namorada.
Ela afasta-se.

– Sim. Obrigada por me lembrares. – Diz com ironia.
– Não é isso. Desde que acabámos, nunca mais sai com ninguém.
– Então, podes argumentar que não me esqueceste.
– Eu sei. Mas eles acham estranho. Se por um lado não te esqueci, por outro aceitei muito bem, percebes? Aceitámos muito depressa a proibição, e isso fá-los desconfiarem.
– Mas não era isso que eles queriam? Que desistíssemos?
– Sim. Mas eles não são parvos. Ainda no outro dia o meu pai me perguntou se eu te tinha voltado a ver. Se tinha a certeza que estava tudo terminado. Ele até está a pensar em contratar um segurança. Diz que é para a minha protecção, mas eu sei que é para me vigiar.
– Mas isso seria terrível. Nunca mais nos poderíamos encontrar.
– Eu sei. E os teus pais, desconfiam de alguma coisa?
– Não. Pelo menos não aparentam. A vida voltou ao normal lá em casa, depois do que aconteceu.
– Isso é bom. Significa que temos que nos preocupar apenas com os meus pais. Mas isso pode se tornar bastante problemático. Temos que fazer qualquer coisa.
– Mas o quê? Tens alguma ideia?

– Bem. Talvez haja uma solução, mas não me parece que vás achar muito piada.
– Já não estou a gostar. Posso saber que ideia genial é essa? Quero só ver.
– A única solução a meu ver é... eu arranjar uma namorada.
– O quê!? – Rebeca levanta-se bruscamente, seguida por Gabriel.
– Só podes estar a brincar!!
– Nunca falei tão a sério.
– Vais desistir assim tão facilmente, é? Depois de tudo?
Ele sorri e diz num tom carinhoso.
– Sua patetinha, não percebeste nada. Não é nada disso do que estás a pensar. Eu arranjo uma namorada, a fingir. De fachada, percebes? Para assim o meu pai deixar de desconfiar de nós, e esquecer o guarda-costas. E nós podemos continuar a encontrar-nos.
– Ah, bom. Mas mesmo assim, não me agrada a ideia. Tu queres é dar umas ‘’voltinhas’’ com outra, que eu conheço-te bem.
– Não vai acontecer nada, entre mim e ela. E como prova de boa fé, podes ser tu a escolher a feliz contemplada.
– Uhm. E quem é que vai querer se dar ao luxo de te ter como namorado, e não tirar o proveito? E sem ganhar nada em troca.

– Escuta-me. Fazemos assim. Primeiro escolhemos. Ok, escolhes a rapariga. Depois arranjamos alguma coisa para lhe dar em troca. Recolhemos informações sobre ela, e logo vê-mos o que podemos usar a nosso favor. Está bem, assim?
– Está bem. Mas eu escolho, ouviste.
– Tu escolhes...
– E pode ser qualquer uma.
– Qualquer uma... Eh, mas também não abuses, está bem?
– Não te preocupes, arranjarei a namorada ideal, para ti e para mim.
Faz um sorriso matreiro. E é agarrada pelo namorado.
– Quero só ver. Agora dá mais uns beijinhos, que já está na hora. Se não for, aí é que estamos em maus lençóis.
– Está bem. Mas só mais uns beijinhos poucos.

Ao dirigirem-se para as aulas, cruzaram-se com a Patrícia e com o Ricardo. Estes são primos e muito amigos deles. Ela namora com Luís que anda na faculdade a estudar direito. Apesar de dedicar muito tempo ao curso, consegue sempre arranjar tempo para a namorada. Vivem os cinco na mesma urbanização. Conhecem-se desde pequenos, tendo sido desde sempre os melhores amigos, apesar de terem idades diferentes.
– Olá, meninos. Então? Continuam a encontrar-se as escondidas?
– Pois, visto que não há outra maneira...mas é melhor falares mais baixo.
– Porquê? Toda a gente sabe...
– Mesmo assim... Então e tu? Como anda o Luís?
– Como sempre muito ocupado com o curso.
– E ela para variar está cheia de ciúmes, não é? – Acrescenta Ricardo, mas ao olhar para a prima repara que ela está muito pálida. – Patrícia, estás bem?
– Sim, sinto-me só um bocado enjoada. O pequeno-almoço não me caiu bem, com licença.
E segue directa para a casa de banho.
– Sabem – diz Ricardo – ela ultimamente não anda bem. Anda muito estranha, e não sei o que se passa. Só espero que não seja nada de grave.

II - Livros

– João, acorda.
– Oh desculpa, estava distraída... O que estavas a dizer?
– Que estavas distraída reparei eu. Estava a comentar sobre o facto de este ser o nosso último ano aqui. Para o ano tudo será diferente. Já pensaste o que queres fazer quando acabares o secundário?
– Tu sabes o que quero fazer. Quero ser escritora. É o que quero acima de tudo. Poder escrever as minhas próprias histórias e transmiti-las às pessoas. Poder deixar a minha marca no mundo, para que quando eu morrer possam saber que eu existi, que fui real. Quero devolver magia e alma à vida das pessoas. Poder fazer algo por elas quando elas se sentem em baixo, e também quando se sentem bem. Quero criar novos mundos e partilhá-los... Quero...
– Ok, ok, já percebi a ideia. Mas achas que consegues fazer isso tudo através de um livro?

– Claro que sim. Um livro é mais que um conjunto de letras e papel, é um amigo, que está a nosso lado quando precisamos, mas que não pede nada em troca. Não reclama, quando estamos demasiado ocupados para lhe darmos atenção, e muito menos, se nos agarramos a eles e já não os largamos. Alimentam os nossos sonhos, e fazem-nos acreditar que tudo é possível e que não há barreiras desde que nós queiramos. Mostram que nada está perdido e que há justiça, embora tudo nos diga o contrário. Eles fazem-nos companhia e trazem-nos um pouco de felicidade e de conhecimento, pois são também óptimos professores e conselheiros, mas tu sabes isso muito bem, andas sempre com livros atrás.
– Pois é. Eu gosto muito de ler, aprende-se muito. Mas ainda bem que tens algo em que acreditas assim tanto. É bom termos objectivos. E fica combinado que serei a primeira a ler os teus livros, certo?
– É claro que sim, nunca deixaria ser outra pessoa. Então e tu? O que vais tu fazer?

– Eu gostava de ser professora. De, tal como tu, poder transmitir conhecimentos a outras pessoas, mas de uma maneira mais directa. Poder participar da vida de milhares de crianças e jovens. A educação é um direito de todos nós. Assim como, também somos todos instrumentos de ensino. Mas é melhor deixarmo-nos de conversas porque já está na hora da próxima aula.
– Tens sempre que ser assim tão pontual? Estou aqui tão bem...
– A pontualidade é uma virtude. Anda lá.
E seguiram as duas para a aula. Mas antes de lá chegarem, foram interrompidas por um grupo de estudantes liderados por um rapaz, que tirou um dos livros de Joana.

– O que tens aqui marronazinha? “Os mistérios do espaço” – Leu o título em voz alta. – O que foi? Queres voltar para o teu planeta? Já não era sem tempo!
– Deixa-a em paz. – Interrompeu Maria pondo-se à frente da amiga entre esta e o rapaz.
– Oh, a namoradinha veio defendê-la foi? – Ouvindo um conjunto de risos atrás dele.
Ela não esperou nem mais um segundo, aproximou-se e deu-lhe uma joelhada entre as pernas, vendo-o gemer de dor em seguida.
– Ups. Sou mesmo desastrada.
Tirou-lhe o livro das mãos e puxou a amiga.
– Vamos embora Joana.
– Sua maluca. Quando te apanhar estás feita ao bife. – Rugiu o rapaz curvado de dor.
Só quando já se tinham afastado, é que uma delas se atreveu a falar.
– Tu és doida. Viste o que acabaste de fazer? Ele era muito maior que tu. Nem quero ver o que ele vai fazer agora. Tu humilhaste-o em frente dos amigos.
– Preocupas-te à toa. Eu sei me defender. Agora despacha-te se não estamos fritas.

I - Memórias...

Maria olhou através do portão, para os vários edifícios abandonados. Quatro blocos erguiam-se do chão e formavam a escola Secundária. Eram de cor creme e eram iguais a praticamente todas as outras escolas. Ao olhar para ela ninguém imaginava a importância que tivera na vida de tanta gente, incluindo na sua. Um único ano, à vinte anos atrás alterara a sua vida para sempre, assim como a dos seus amigos. Agora, aquele complexo era seu. Comprara-o e iria transformá-lo num centro de acolhimento para meninos de rua. Era um projecto que já tinha há muito tempo e agora, finalmente, iria conseguir realizá-lo. Estava no Outono, e as árvores perdiam as suas folhas, cobrindo o chão de um tom amarelado e castanho, característico daquela época. Uma aragem mais fresca relembra que o Verão já terminou e que o Inverno está à porta. Abriu o portão, e ouviu-o gemer, pedindo por óleo nas dobradiças. Sentiu o ferro na pele dos seus dedos, o mesmo ferro onde tinha tocado tantas vezes e há tantos anos... Eram tantas as recordações... Tantas imagens que lhe enchiam a mente... Parecia que toda a sua vida estava ali, dentro daqueles muros... Quem diria no início do seu décimo segundo ano escolar, que seria o ano que mudaria tudo...

Olhou para uma árvore ali perto e viu-se a si própria com dezasseis anos, ajoelhada no chão à procura de um caderno dentro da mala, com a sua amiga Joana, em pé, à sua espera, impaciente. Vestia as suas típicas jardineiras, e o seu boné na cabeça, que lhe escondia o cabelo. Toda a gente a olhava de lado pela maneira como se vestia, pois parecia um rapaz, mas ela não se importava, jurara que nunca iria mudar por causa do que as pessoas pensavam. Mas isso significava ter pouco amigos, o que também não lhe incomodava, pois era muito feliz com os amigos que tinha, visto que gostavam dela pelo que ela era. Olhou para a sua amiga. Vestia uma saia preta e meias pelos joelhos, usava óculos, e levava um molhe de livros debaixo do braço. Era bastante inteligente e adorava ler. Era a sua melhor amiga apenas há dois anos, mas esperava que continuasse a sê-lo para sempre.

– Vá lá João, despacha-te, não queres chegar atrasada no primeiro dia de aulas, pois não?
Os amigos chamavam-lhe João, em vez de Maria. Ela preferia assim, o seu segundo nome tinha mais a ver com ela, embora as pessoas o associassem a um rapaz.
– Calma Joana, vou já. Primeiro preciso de encontrar o meu caderno, eu sei que ele está algures por aqui...
– És sempre a mesma coisa, nunca sabes de nada. E também nunca largas esse caderno.
– Tu sabes que este caderno é importante.
– Sim, eu sei. É onde escreves todas as tuas ideias para os teus futuros livros. Eu sei, eu sei. Mas não podias procurar depois?
– Não. Calma, eu vou encontrá-lo. Só um segundo. Cá está. – Mostra triunfante o caderno preto, com um ar bastante usado, que acabara de tirar da mochila.

– Olá meninas. Que estão aqui a fazer?
A voz vinha de trás delas.
– Ah, olá Rui – cumprimentou-o pondo-se de pé e virando-se.
– Olá Joana – insistiu ele vendo que esta não respondia.
Ela apenas lhe dirigiu um seco ‘olá’.
– Mas será que vocês não se conseguem dar bem?
– Nós damo-nos muito bem... E vamos embora que já tocou há muito tempo. – Atacou a outra rapariga dirigindo-se para a sala, deixando os amigos para trás que encolheram os ombros e a seguiram.
Maria sorriu. Aqueles dois andavam sempre a implicar um com o outro, sem saber o que o futuro lhes reservava.

Olhou para o outro lado e viu-o. Na altura ainda não o conhecia, nada significava para ela. Ia com a sua namorada. Os pais não queriam que namorassem, por isso a escola era o único sítio em que podiam estar à vontade. Eram os dois os mais populares da escola, ele era rico, bonito e fazia parte da equipa de atletismo da escola. Ela era igualmente favorecida monetariamente e era aquele tipo de miúda que todos invejam e idolatram. De quem as raparigas se querem tornar amigas e os rapazes querem acrescentar às suas listas de conquistas. Era perdidamente obcecada por Gabriel e pelo amor que sentia por ele. Era capaz de fazer qualquer coisa, para ficarem juntos. Ela descobriu isso mais tarde. Tinha também uma notória ausência de sentido de responsabilidade. Seguiam com o seu grupo de amigos que nada tinha a ver com os amigos dela.

Passear por aqueles corredores era como fazer uma viagem ao passado, reviver tudo outra vez... Fechou os olhos e quando os abriu novamente voltara a ter dezasseis anos e encontrava-se na cantina a falar com a sua melhor amiga.

– João, acorda.