Depois daquele “encontro” na casa de banho. Maria seguiu para a aula, entrando já bastante atrasada. Enquanto que Patrícia foi dar um passeio que iria decidir a sua vida.
À hora de almoço os três amigos dirigem-se ao refeitório, onde João se depara com um espectáculo que a deixa furiosa. Numa das mesas, um grupo de rapazes e raparigas gozavam com um miúdo pelos seus óculos e até mesmo pela quantidade de medicamentos que se encontravam a sua frente. Pareciam muito divertidos e decididamente achavam que estavam a ser muito engraçados. Mas ela não estava a achar graça nenhuma à situação. Desprezava-os pela situação em geral e pelo miúdo em concreto, ou não fosse ele o seu irmão mais novo.
Joana e Rui olhavam incrédulos quer para a cena, quer para o rosto cada vez mais enraivecido da amiga.
À hora de almoço os três amigos dirigem-se ao refeitório, onde João se depara com um espectáculo que a deixa furiosa. Numa das mesas, um grupo de rapazes e raparigas gozavam com um miúdo pelos seus óculos e até mesmo pela quantidade de medicamentos que se encontravam a sua frente. Pareciam muito divertidos e decididamente achavam que estavam a ser muito engraçados. Mas ela não estava a achar graça nenhuma à situação. Desprezava-os pela situação em geral e pelo miúdo em concreto, ou não fosse ele o seu irmão mais novo.
Joana e Rui olhavam incrédulos quer para a cena, quer para o rosto cada vez mais enraivecido da amiga.
– João, mais confusão hoje não... Ainda vamos no primeiro dia... – Pediu Joana, mas ela já não ouviu pois já se dirigia com movimentos firmes para o local da agitação.
– Bem, já viram? Parece uma farmácia. – Ria-se Gabriel quando reparou no furacão que se dirigia na sua direcção.
– Deixa-o. – Disse Maria com voz firme.
– Olha quem é ela. – Provocou um dos rapazes do grupo que ela identificou como sendo o rapaz da joelhada de manhã... Ele estalava os dedos em tom ameaçador.
– Então já passou a dor? – Provocou ela.
– Qual dor? – Quis saber Gabriel.
– Não interessa.
Maria sentiu a presença dos dois amigos atrás de si, e do seu irmão que olhava para ela assustado. Sabia que não era boa ideia meterem-se com a sua irmã. Mas para além deles reparou que os restantes alunos presentes na divisão, estavam com os olhos postos nela e no elemento que parecia liderar aquele grupo de inconsequentes. Aquele rapaz com ombros largos e porte desportivo que a olhava com um ar gozão e divertido. Estava disposto a ver até onde ela ia, mas ao mesmo tempo não ia deixar que uma rapariga, embora mais parecesse um rapaz, o desafiasse em público.
– Essa miúda tem a mania se meter onde não é chamada.
– Deve achar que é a defensora dos fracos e oprimidos. Queres uma estátua? – Ao desafiá-la, deu-lhe um leve encontrão junto ao ombro.
Ela olhou para o local onde ele tinha tocado e de novo para ele. Mas apesar dos seus olhos crisparem de raiva, não se moveu um milímetro, apenas acrescentou calmamente:
– Eu só quero que parem de implicar com quem não se consegue defender. E que não partilhem os vossos modos primitivos e a vossa ignorância com mais ninguém para além de vocês mesmos. O mundo só tem a ganhar.
Aquela, aquela amostra de rapariga, definitivamente, estava a passar das marcas...
– Eu mostro-te o que são modos primitivos.
Naquela altura, perdera mesmo o controle e esquecendo-se de quem estava ao redor, agarrou-a na camisola na área do colarinho. Não lhe queria bater mas reagiu por instinto, não aguentava ouvir um insulto daqueles e ficar quieto. O que não esperava era a reacção que ela tivera a seguir. Ela apanhou-o totalmente desprevenido, quando o agarrou no braço, deu-lhe a volta e empurrou-lhe as costas de maneira que ele batesse com o nariz na mesa, e ficasse com o peito sobre ela enquanto que o braço permanecia agarrado por ela, e encostá-lo às suas costas. Parecia fraca, mas tinha força e assim imobilizou-o impedindo-o de se mexer. O amigo ao ver o ataque reagiu dirigindo-se a ela, mas levou um pontapé na barriga, caindo no chão. Estavam todos de boca aberta, ninguém queria acreditar no que tinha acabado de acontecer. Parecia demasiado irreal, talvez uma cena de um filme, mas nunca algo que tivessem acabado de presenciar ao vivo. Mais ninguém, nem nenhum elemento do grupo, se atreveu a intervir, e ataca-la. Finalmente, ela largou o Gabriel, que se encontrava a sangrar devido à pancada. Dois rapazes ajudavam a levantar, o que estava caído no chão.
– Tu és doida!!
– Talvez. Mas não tens que te preocupar com isso, a menos que te voltes a meter, tu ou algum dos teus amigos, – dirigiu-se especificamente ao namorado de Rebeca – com qualquer aluno desta escola, muito menos com o meu irmão. Ouviram bem?
Sem esperar pela resposta dirigiu-se, ao pequeno que a olhava assustado.
– Estás bem? Já almoçaste?
Ele respondeu afirmativamente.
– Então anda, vou-te levar à sala. Não tenho mais nada que fazer aqui, perdi a fome.
Ajudou-o a arrumar os medicamentos, e seguiu em direcção à porta, perante o olhar ainda atónico dos restantes.
– Isto não vai ficar assim, ouviste, sua doida? Vais pagar-mas. – Ainda ouviu antes de desaparecer pela porta. Era a segunda vez, que a ameaçavam num dia. Aquele ano, começava bem...
– Obrigada mana. Deste um valente coça aqueles dois. Parecias um herói dos desenhos animados. Ensinas-me a lutar assim?
– Não Rafa. Não se deve lutar. É errado.
– Mas tu lutaste...
– Foi diferente, não fui eu que comecei. E também fiz mal, não devia ter perdido o controlo. Vou arranjar sarilhos. E aqueles dois magoaram-se.
– Mas eles mereciam.
– Mas mesmo assim... Não se deve recorrer à violência. Não devia ter feito aquilo, só desci ao nível deles. Tenho que me controlar.
– Sim, mana. Mas continuo a achar que foste um espectáculo. Obrigada por me ajudares. Adoro-te, és o meu herói. – Dá-lhe um beijo carinhoso na face. Ela sorri.
– Obrigada. Já sabes “Sempre que precisares eu estarei lá” – proclamou imitando os heróis que se viam na televisão. – Agora vai para a aula ou chegas atrasado.
Despediu-se dele com um beijo e uma esfregadela suave no cabelo. Adorava aquele miúdo. Por ele valia a pena continuar a lutar.
Quando se virou para ir para a sua própria aula, deu de caras com a Joana e o Rui.
A sua amiga, estava de braços cruzados, olhando-a fixamente com ar reprovador.
– Tu não ganhas mesmo juízo, pois não? E desta vez, nem sequer se passou um dia, até te meteres em sarilhos. Um dia, João!
– Jo escuta.
– Não. Não quero ouvir. Tu fazes ideia, do que fizeste? A directora já sabe o que aconteceu e quer falar contigo. De certeza que vais ser suspensa...
– Não me surpreende. Também não é a primeira vez...
– Pois não. Mas espero bem que seja a última. Já viste o que estás a fazer à tua vida? Por favor, João...
– Eu sei que tens razão, Jo. Eu perdi o controle, mas quando os vi de volta do Rafa, perdi a cabeça. Eles não têm o direito de se meter com ele. Ele é doente.
– Eu sei disso. E compreendo. Mas mesmo assim, tenta pensar antes de fazeres asneiras. Prometes?
Ela suspirou. A amiga tinha razão. Tinha que pensar primeiro e agir depois.
– Prometo.
– Está melhor. Desculpa, mas eu preocupo-me contigo.
– Eu sei. Obrigada. – As duas amigas abraçam-se.
– Então e eu? - Pergunta Rui que entretanto tinha sido esquecido por elas.
– Tu não mereces, além disso é melhor irmos, já tens problemas que cheguem. E ainda tens que ir falar com a directora, ela está furiosa.
Maria encolheu os braços, e seguiu-os. Aquela miúda nunca mudaria. Coitado do Rui...